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O QUE NÃO DEIXOU DE SER

De frente pra história apenas me curvo.
Pois há que se reconhecer o que é raro.
Como rara é toda verdade. Ave de
guerrilha no estribilho...
Pode ser que tudo exploda
em expressão e coragem...
Pode ser que tudo falte. Pode ser
que a noite emplaque. Pode ser que vate
ou quem sabe um mate. Erva na cuia dos
lajedos.
“Hoje acordei mais cedo” - disse. Às 4h
da madrugada não é mais o dia que vai
nascer mas a vida toda que passou
e ainda está aqui, sumindo, sumindo...
O tempo é longe!
Tem vez que a solidão toma conta. Nada
embriaga o que está só. Nem o vento. Ou
a escada.
Nem o haxixe das manadas...
O que ficou já não te pertence.
De tão imensas que são essas ilhas
da existência...
Às vezes penso nisso e
falta paciência.
(Lau Siqueira)

A ÚLTIMA PÁGINA

Não guardo mágoas. Pesam demais. São fardos que grudam
na pele e deixam as omoplatas
em carne viva.
Não guardo o que me fere para
além das próprias cicatrizes. São
exatamente as dores que não
fazem falta.
Aquelas que feriram fundo. Que
descarnaram a alma. Não hesito
em transbordá-las na primeira
janela...
Como num livro que
se lê de forma inconclusiva.
(Lau Siqueira)

LATITUDE

tem gente
que é grude

outros são
apenas nude

tem os sem
aço e sem
atitude

os que de
tanto suar
açude

hey
jude

SONHAR COM SERPENTES

Stop. Não se assuste. Não se
trata de vidência, mas de poesia.

Eram pequenas serpentes
apenas. Em algumas pessoas
elas ficam enormes. Engolem
quem se aproxima. 

Depois engolem a própria fome 
para saciar a miséria
do corpo...

Eram pequenas serpentes
que foram extraídas enquanto
estavas dormindo. Agora estás 
livre do veneno. Estás longe
de ser devorada,

comida das tuas próprias
demências.

As cobras extraídas representam
libertação. Significa dar lugar
aos pássaros do teu corpo e da tua
alma. 

Que saia o que
rastejaenha 
o que voa e canta...

Mas, o poeta não decifra sonhos.
Apenas observa e faz escolhas.

Escolhi cantar e voar pra você.
Vida de pássara que alimenta
o planeta.

Olha!
Sinta que já chegaram
os pássaros...

LS

MEU NOME É JOÃO

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SOBRE EXPLOSIVOS E OUTRAS MISSANGAS

A poesia não abre portas. Não espalha
o ar rarefeito da sala. Não tira os pelos
da cama. Pentelhos...

Não importa aos senhores
do Conselho. Nem às senhoras
do movimento.

A querem luta. Pobre puta!

Aos suicidas é apenas o motivo. Que no
sabre sobra e surta.
É só um caos. Um penhasco do qual salto
sem asas para dentro das miragens.

A poesia não reconhece as covas
da eternidade. O cânhamo e não o cânone
é sua matéria.

Artéria de aquarelas. Metáforas singelas.

E a poesia, esperta, finge que é pássaro
e voa longe dasua verdade fingida.

RIO DOCE

era uma vez um rio
que nunca afundou
um barco

entao veio a samarco

levou pasto pedras
gente carro árvore

assustou os pássaros

detonou uma bomba
de hirochica

tsunami azedo num
rio que era doce

nem era tanta sua fama
quanto densa é a lama

e não restou sequer
um único entardecer
pra semente

pois a morte de um rio
destrói até o poente
(Lau Siqueira)